Bem vindo ao mundo, ticket no caixa, próximo por favor. Me sinto orgulhosa de ter nascido em uma época tão única e estúpida da história. Nasceu no mundo, filha, paga. Se você pediu ou não, isto é um problema metafísico totalmente fora de questão: senta e come. E não se pergunte por besteiras, você não pode mudar nada. Admito assim, filhinha, antes mesmo de que você nasça, sua zeroesquerdisse.
Oras, se o problema é o mundo, acabemos com ele, simples -pensa o filósofo- se o problema é Deus, dizemos que morreu e ninguém notará a diferença, a menos que Deus exista. É um risco que vale a pena correr. Duas Culpas pra viagem, sem cebola. Peça a nota fiscal por precaução. A maioria dos filósofos, com olerite, em algum momento se diz: “não existe época mais estúpida que essa, tenho que escrever isso”, e têm razão, Deus não faz a mínima diferença na nossa estupidez. Continuamos tontos, cinco vezes sem juros.
Cheque especial. Sinta-se importante: te deixam levar essa joça a passeio antes mesmo de pagá-la. Olha como confiam em você. O normal -você pensa- sería que todos pudéssemos comprar qualquer joça à vista. E a mãe te manda calar, mas você sabe, no íntimo e pela história, que o destrói o sistema de importancia é a desimportancia. Aonde se gera? Teremos que definir ‘mundo’, antes de continuar com essa conversa - diz o retumbante sopro da sabedoria que é o bafo filosofal: “assim não da”. Se nos entendemos pelas palavras, entendamos, pois, o entendimento das palavras, façamos uma nova convenção, enriqueçamos -pelo menos- o idioma. Defina mundo, te dirá, e tua resposta é o de menos, filha. E não porque você tenha o nome sujo na praça, mas porque a tua zeroesquerdisse é essencial para iludir a sua. Duas culpas sem cebola, próxima cabine.
Você responde que o mundo somos nós, que é soma emocional de todas as nossas considerações sobre a realidade. E ele dirá, de manera mui perspicaz, que há tantos mundos por habitante, e não será você que lhe tire a flamante razão. Ambos estão de acordo no ponto de coexistencia no mesmo mundo, que se multiplica por habitante, mas você não quer definir habitante porque pensa que seria contraproducente e tem pressa. Tenta sair de fininho. Eu disse sem cebola nas duas Culpas, por favor, não me faça esperar.
Não sem antes definir habitante -insiste o detentor de todos os métodos. Você detesta ser clarevidente. O habitante é uma mala sem alça, você diz, mas sua existência prova que no mundo há espaço infinito para todos os malas, e mais que isso: como multiplicador de malas não é de estranhar o fato de ter que se pagar pra viver nele. Nessa hora você sente suficiente confiança e abre o coração: parece que se está vivendo no mundo dos outros, os tontos. O que também é certo. Duas Desculpas com cebola, doze reais, senhora, algo mais? -a zeroesquerdisse era fator tão unânime, que você agora entende o filósofo como se fosse seu irmão gêmeo.
O tom do “algo mais” é de “não peça nada mais porque já fechei o seu pedido”. Sim -você responde- quero que você defina Desculpa. Senhora, se você pediu Desculpas é porque você já sabe o que é. Tudo por trabalhar mais e mais rápido: o método do filósofo pra distinguir as Desculpas das Culpas, tinha fracassado por completo. Demasiado generoso, por não dizer estúpido, ter que depender da benevolência do outro para persuadir-lhe de que se equivoca: juíz ladrão, porrada solução. Mas você não podia quebrar o cara, né.
Pelo menos sim podia se orgulhar da sua definição de mala. Não quero cebola, nem Desculpas, e nem Culpas, cancele meu pedido. Senhora, não posso fazer isso. Senhora é a sua vó - e você não tem suficiente coragem pra arrancar o carro porque tem fome. Doze reais senhora, ou vou ter que chamar a segurança. Faça o favor, moleque -e agora te enches de coragem. Tua mente insana pretende convencer o policial pelo método definições a levar preso o garoto. Afinal, você tem todo o direito de não pagar pelo que não pediu, e que em todo caso, a empresa deve te pagar a gasolina por ter esperado todo esse tempo, assim como a taxa de poluição urbana por habitante, que costuma ser um incremento 12% de no abastecimento. Um autêntico vexame.
Pedira nota fiscal, senhora? Ainda não. Então nem tente retrucar sem atestados. Culpa da mãe que te pariu, se não não terias fome. Desejo, logo existo, e me movimento porque quero, desejo. Portanto só sou livre quando estou parada. Por essa regra de três você, nasceu por vontade: não pode culpar a mãe. Acalme-se, respire, multiplique-se por zero, cabemos todos no mundo. Melhor aceite as Desculpas, ou acabará pagando para definir cebola.